
O filme é um drama familiar que se desenvolve no interior do Irã, envolvendo a relação entre um pai e um filho cego, de 12 anos, e entre eles e a avó do menino. O pai, viúvo, tem mais duas filhas e está para se casar com nova mulher. Mas, esconde dela a existência desse filho, que estuda na capital Teerã e passa as férias na pequena aldeia no interior do país, onde reside o pai, a avó e as duas irmãs. Estando o menino na aldeia numa dessas férias e já perto de se casar, o pai afasta-o do convívio familiar levando-o para viver com um carpinteiro também cego a fim de que este ensine o ofício ao filho. A avó adora o neto e inconformada com o seu afastamento adoece e morre. Com a sua morte a família de sua futura esposa desfaz o casamento, por maus presságios. Sentindo-se culpado, o pai se arrepende do que fez, e, para redimir-se, vai buscar o filho para que volte a viver com o que restou da família. No entanto, na viagem de volta, o filho cai de uma ponte e é levado pela correnteza do rio. O sentimento paterno impõe-se e ele se atira no rio a fim de salvá-lo. No entanto, pouca coisa pode ser feita e, adiante, ele encontra o corpo desfalecido. Abraça-o, deixando aflorar profundo sentimento de perda e de amor pelo mesmo. O filho, em seus últimos estertores, parece ter sentido finalmente que o pai o ama de verdade, o que sempre quis. O amor do pai pode ter tornado o paraíso colorido para o menino.
Somente essa história já justificaria ver o filme, pois é muito bem contada, com poucos diálogos e uma fotografia lindíssima que ajuda a nos mostrar que alguns sentimentos humanos são universais: amor paterno/filial, profundas afetividades entre familiares, certo egoísmo a que nós humanos somos sujeitos em nossas vidas e suas conseqüências, o sentimento de culpa, etc. Também é retratado o dia-a-dia dos habitantes de uma aldeia no interior do Irã, seus afazeres, sua religiosidade, seus costumes.
No entanto, por trás dessa simplicidade percebo um filme que fala da exclusão social no Irã, percepção essa que resulta de uma narrativa como um jogo entre o dito e o não-dito, proposta pelo diretor. O dito: as cenas que mostram o pai pegando o menino em Teerã e levando para o interior são primorosas. Nelas são expostos o longo tempo de viagem, as mudanças das paisagens, as formas de viajar até chegar à Aldeia, etc. O não-dito: é como se dissesse ‘vamos ver a realidade do interior, fora da Capital. Só assim podemos conhecer o Irã’.
Nesse sentido, o menino cego é o símbolo das pessoas que não estão integradas na chamada moderna sociedade iraniana. Como ele, várias pessoas que, em geral, vivem no interior do país, enfrentam uma dura e difícil luta pela sobrevivência para conseguirem viver com dignidade. Para elas, a prática e o discurso oficial do governo do Irã não tem a mínima importância ou o menor alcance, parecendo mesmo inexistir.
Assim, enquanto o governo iraniano está envolvido em manter um suspeito programa nuclear, vive num conflito aberto com a comunidade internacional e reprime seus opositores, boa parte dos iranianos, mais pobres, tratam de seus afazeres cotidianos à margem do mundo da política e do seu exercício pelos atuais donos do poder que, parece, não tem nenhuma política pública que contemple os excluídos.
Por isso, no filme, todos parecem ser vítimas desamparadas: o pai que trabalha como uma besta em atividades que parecem ser próprias do século XVIII. A avó que trabalha no campo para tirar o sustento domestico, mantendo seus costumes de longa data; o filho cego que não se sente protegido e cujo futuro é incerto; as filhas que parecem prisioneiras de rotina da aldeia; a ex-futura mulher, presa a relações familiares milenares. Para todos eles, Teerã está muito longe, afastada de seus mais simples desejos. Vivendo assim, só lhes resta esperarem pelo dia em que verão a cor do paraíso!